Após um primeiro dia calmo, tivemos hoje um enriquecedor ciclo de palestras no Primeiro Congresso Internacional do Livro Digital, e bem tuitado no nosso @escritobrasil. Começamos com Jeff Gomez, presidente da Starlight Runner Entertainment, uma empresa que presta consultoria a grandes marcas na criação de estratégias transmídia, isto é, prover conteúdo através de diversos meios, como livros, filmes, games, websites, quadrinhos, seriados e outras invenções. Entitulada “O Poder da Narrativa Transmídia”, a palestra enfatizou o trabalho principal da indústria do conteúdo: contar estórias, extrapolando os romances, sem medir esforços para cativar o consumidor do conteúdo com todo um universo bem planejado, com diferentes estórias para cada meio (nada de repetir a narrativa do filme no game, disse Gomez, que é um gamer e garante que os jogos produzidos dessa repetição são normalmente péssimos). Jeff ajudou a planejar o universo nos games e livros de filmes como Avatar e Piratas do Caribe, além de diversos da Disney, e até mesmo da Coca-Cola, antes que se pense que o trabalho de Gomez limita-se aos estúdios. Mas limita-se aos grandes. Assim, houve certa dificuldade da audiência em trazer essa realidade transmídia para o mercado brasileiro, enquanto davam-se apenas os tremendos cases de sucesso da Starlight. Mas saí dessa primeira palestra pensando que é sim possível trabalhar através de mídias de uma forma inteligente em pequena escala. Cada editora, por exemplo, poderia se dar ao luxo de modestas iniciativas nesse sentido usando-se de seus melhores e mais rentáveis autores. O mais importante, segundo Gomez, é já pensar no universo daquela franquia, desde de antes de criá-lo, para diferentes mídias, como livros, sites e filmes (mesmo que caseiros). Uma deixa sensacional dele é envolver os leitores na criação do conteúdo, através de mídias sociais, com a possibilidade de aceitar boas criações como oficiais no universo da franquia.

E falando em new media, Arantxa Mellado arrasou na palestra sobre “Como usar as ferramentas de Mídia Social no mercado do livro”, assunto do qual entende de primeira mão dirigindo o portal espanhol Ediciona.com. Segundo ela, antes de mais nada, para uma editora, deve-se estabelecer uma estratégia de marketing social que envolva toda a empresa e seus produtos em canais (redes sociais) bem definidos e que contenham o público alvo almejado, e que fique na mão de alguém especializado, o chamado community manager, tudo para que a mensagem passada socialmente seja focada e consistente. Isso constrói a imagem da editora e de seus livros, enquanto passos em falso podem queimar essa imagem antes que se perceba o(s) erro(s).

Ela fala também na viralidade do conteúdo na web, e como aproveitar-se disso para divulgação com vídeos, hotsites e outros meios (também pensou em transmídia aqui?). O importante é permitir aos usuários um meio simples e prático de compartilhar conteúdo seu em redes como Facebook e twitter. Um desses conteúdos disponível para as editoras e autores são uma parte do livro grátis, como o primeiro capítulo. Pesquisas mostram que 80% das pessoas que leem um primeiro capítulo grátis, como amostra, compram o livro. Outro artifício é sortear livros entre usuários que interagem na rede social, por exemplo deixando um comentário na página da editora.

A chave para uma boa relação na nova mídia é não falar diretamente de seus produtos, sejam eles livros ou quaisquer outros, mas sim movimentar discussões e interações que envolvam de raspão o tópico dos seus livros. E por meio dessas movimentações o editor ou autor tem a possibilidade de sentir a necessidade de seu público, a que temas e assuntos ele está mais aberto.

Mas depois de Jeff Gomez veio na verdade Calvin Baker, diretor da ScrollMotion e co-criador do excelente Iceberg Reader, um aplicativo para iPhone que ele apresentou em diversas versões, para exemplificar seu tema, “O Camnho da Mobilidade: Oportunidades e Ameaças”. O Iceberg Reader possui a versão padrão e duas especializadas: uma para livros infantis e outra para livros técnicos. Mas o que elas tem em comum é uma inteligente interface de navegação e leitura. Ele preserva a paginação do livro impresso, e um gesto horizontal na tela touch do iPhone muda de página. Mas peraí, se ele preserva a paginação de um impresso que tem uma área de visualização bem maior que a diminuta telinha do iPhone, e um flick do dedo passa a página, não fica material não lido? Na verdade, aí entra o merecido nome da empresa e sua tecnologia, “ScrollMotion”. O principal artíficio de navegação não é o gesto horizontal, padrão dos e-readers e tantos outros aplicativos para celulares e tablets, e sim o gesto vertical, que vai passando o texto sem pausas, como um pergaminho contínuo que só acaba quando chegamos à última página do livro. Mas dentre esse continuum a passagem de páginas é sinalizada por um espaçinho extra, sem que no entanto interrompa a leitura. Um tanto engenhoso, e sem dúvida um programa a ser resenhado aqui no blog eScrito tão logo eu coloque minhas mãos no prodígio celular da Apple.

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